

Quase Diário
Martinho, Nei, Leno e Drummond, botam o bloco na rua - Gritem!
Vez por outra, na nobilíssima página sete de O Globo, trava-se
uma saudável “guerra” cultural onde as balas têm
sabor hortelã, com algumas pitadas de pimenta, claro!Discutem o DNA
e as fronteiras da música popular brasileira. Houve, e sempre haverá
invasões de divisas, e repetições do “Querem acabar
com o samba!”. Bobagens! Como diz o mestre Nelson Sargento, O samba
agoniza, mas não morre. É como o jazz, entendo.
Enquanto houver, no mundo um coração batendo, marcando os compassos,
passos, e uma alma cantando a vida, não haverá jazigo com epitáfio:
Aqui jaz o samba, ou, vive-versa.
A África é a mãe de todos os gêneros musicais que
têm alma. A alma não morre, fica: só o corpo degenera...
É coisa do Deus Superior que a gente não sabe se Ele é
branco mulato ou negro... Quem sabe asiático, índio!...
A briga é boa. Assanha guerreiros como Nei Lopes e Martinho da Vila
que, democraticamente abrem espaços para reforços brilhantes
como o jornalista Leonardo Drummond...
Sinto falta, nessa arena, de Haroldo Costa, Sergio Cabral (pai), Caetano Veloso,
Jairzinho (filho de Jair Rodrigues) e, ansiosamente, estou no aguardo de outras
geniais surpresas como Leno! “(Sim, falo menino rico dos movimentos
“Jovem Guarda” e “Favoritos da Nova geração”,
que pontificou nas paradas nos anos sessenta, com “Pobre menina”,
e outros sucessos como cantor, compositor e músico)”. Não
vai ser fácil achar outro – tão bom, na mesma praia!...
Tomara que eu esteja enganado. É uma provocação...
Que bom seria se todas as “guerras” fossem assim: discutindo espaços,
harmonias, compassos, passos e poesias. Cá no alto de meus 79 anos
vitaminados por acordes e tempos musicais, já contemplei duelos semelhantes:
Polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista. Wilson era o espadachim de
uma “nação” chamada Lapa (ressuscitada agora), e
Noel o rei do gatilho de um país com nome de mulher: Vila Isabel.
Houve, também, uma briguinha entre Ataulfo Alves e Mirabeau e uma quase
tragédia entre Dalva de Oliveira e Harivelto Martins, que mobilizou
o país, inteiro. Sim, uma “guerra” de canções
que envolveu “guerrilheiros” como Harivelto, David Nasser, Marino
Pinto, Ataulfo Alves, Nelson Cavaquinho...
“Entre mortos e feridos, escaparam todos”. Ninguém morreu:
Os guerreiros estão vivos aqui na nossa lembrança. Só
um exemplo:
Herivelto – “Não falem dessa mulher perto de mim. Não
falem para não lembrar minha dor”.
Dalva – “Errei, sim. Mas foste tu mesmo, o culpado”.
Participei nessa pendenga.
Voltando ao debate Música popular Brasileira, de O Globo (12 de janeiro
de 2007), exultei-me com o competente e corajoso texto do cantor e compositor
Leno “Hamlet, samba-ideológico e pop-rock”. Conforta-me
conferir tamanho talento numa casta que ajudei construir. Que venham outros
como Leno. São raros os roqueiros polêmicos, na “caneta”,
como Lobão... Na “gang” dos anos sessenta, só Carlos
Imperial se atrevia!
Querem os puristas ideológicos e egoístas, que tudo aconteça
ao seu modo. Não, não é assim que a banda toca. Tudo
se transforma!Cada coisa há seu tempo: É conveniente que não
deixemos que as raízes apodreçam, mas, é inevitável
roupa nova; conforme o tempo, a moda...
Sou a favor do pop-rock, por falta de coisa melhor para defender.
Quando o mercado foi invadido pelo falso sertanejo e pelo desastrado pagode,
estava em efervescência não vi os Heróis da resistência
em campo de batalha, lutando por nossas raízes culturais: Deixaram
rolar as breguíces... Recolhido a minha insignificância, fiz
o que pude: Faltaram-me espaços na chamada grande mídia que
sempre nos tratou (“... os da direita festiva!”), como sob produto!
- Preconceito de surdos e cegos que não querem ver...
Sou “raizeiro”, aluno de Herivelto Martins, Heitor dos Prazeres,
Monsueto Menezes...
Convidei Caetano Veloso para o resgate desse gênero e ele, pareceu-me,
que gostou da idéia. Ficou nisso. Faltou tempo, creio!
Sou grato por existências de Marisa Monte, Lenine, e dos recém
chegados Ana Carolina, Seu Jorge...
Acima de tudo, o bom deve estar no ar.
Alcione, Fundo de quintal, Jorge Aragão e Zéca Pagodinho, foram
os milagres da década passada. Faltaram flautas, cavaquinhos, violões,
pandeiros e tamborins. Faltaram poesias e sambas do jeito de Zé Kéti...
Faltou Nara Leão, caçadora de raiz, amiga de voz pequena e objetivos
grandes...
Leno, Nei, Martinho, Drummond, não guardem suas armas brancas nas bainhas
da acomodação. Convoquem, se preciso for, outros soldados, encomendem
mísseis... Como canta Alcione: “Não deixem o samba Morrer”.
E, não se esqueçam dos que vêm do norte: Gonzagas, Jacksons...
Cadê outros?!
Ah! Consertem o samba-enredo e devolvam-me as marchinhas.
Obrigado.
José Messias.
(Jornalista, compositor, diretor de rádio televisão, escritor
e operário de música popular brasileira.) Amém!

